XRD em cimentos com SCMs: como quantificar material amorfo

Entenda por que a fração amorfa precisa entrar no controle de cimentos com adições e como preparo, XRD e calibração se conectam.

Reduzir clínquer significa aumentar a relevância de escória, pozolanas, cinza volante, argila calcinada e outras adições. A química total continua necessária, mas já não responde tudo. Dois materiais podem apresentar composição química próxima e, ainda assim, terem fases e parcelas amorfas diferentes — com consequências para a formulação e para o desempenho esperado.

É nesse ponto que a difração de raios X deixa de ser apenas uma lista de fases cristalinas. Ela passa a ajudar o laboratório a entender o que a composição global não separa.

A parte amorfa não aparece como um pico bem definido

Na XRD, fases cristalinas geram reflexões características que podem ser identificadas e quantificadas, por exemplo com refinamento de Rietveld. Já o material amorfo não forma picos definidos. Se ele não entrar no método por uma estratégia adicional, o laboratório enxerga apenas uma parte da mineralogia.

Uma das estratégias é construir uma lista de picos calibrados, CPL. Misturas conhecidas formam uma referência para estimar a fração amorfa de materiais desconhecidos. Não é um atalho de software: a calibração precisa refletir as fases, o preparo e as faixas que a fábrica realmente encontrará.

Antes do difratômetro, existe uma amostra para tornar comparável

Preparo de amostra é particularmente crítico em clínquer e escória porque são materiais duros e quebradiços. Em um relatório de britagem de clínquer, 3 kg de material com alimentação de até 35 mm foram processados por 5 minutos em britador de mandíbulas; o objetivo era gerar material para moagem fina posterior, com 50% abaixo de 1 mm.

Em outro teste, 30 g de clínquer e escória com 3 a 7 mm foram moídos por 5 minutos em moinho planetário com componentes de carbeto de tungstênio. As amostras chegaram, respectivamente, a 100% e 99% abaixo de 100 µm para análise por XRF. Esses resultados são condições de teste, não uma receita automática para toda fábrica. Mas deixam clara a lógica: britagem, massa, material do jarro, tempo de moagem e risco de aglomeração interferem no dado que será comparado depois.

Quando o objetivo é XRD quantitativo, a fábrica deve validar a granulometria, a homogeneidade e a ausência de contaminação na sua própria rota. Uma mudança silenciosa no preparo pode parecer mudança de fase ou de teor amorfo.

O caso da CPL: útil, mas com fronteira definida

Em uma nota de aplicação com misturas em pó de clínquer e escória amorfa, foram avaliados teores nominais de 20%, 30%, 50%, 70% e 80% de escória. As medições foram feitas em um ARL X’TRA Companion, com radiação Cu Kα e 10 minutos por amostra. A escória usada no estudo apresentou 97% de amorfismo.

A mistura de 48,5% de conteúdo amorfo foi usada para construir a CPL. Com Profex, algoritmo BGMN e abordagem de parâmetros fundamentais, o trabalho reportou desvio de até 1 ponto percentual absoluto e correlação de 0,999 entre teor nominal e refinado. É um ótimo exemplo de método bem delimitado; não é uma promessa de 1 ponto percentual para qualquer cimento, qualquer adição ou qualquer rotina de preparo.

Transformar um número mineralógico em decisão

O resultado só ganha valor quando a ação está combinada antes da leitura. Uma mudança na fração amorfa pode levar a investigar fornecedor, revisar uma dosagem, segregar lote, pedir nova amostragem ou aprofundar a caracterização. Sem essa ligação, a análise vira apenas mais uma coluna no laudo.

Para cimentos com menor fator clínquer, a pergunta de rotina deixa de ser “temos XRD?”. Passa a ser: quais fases e quais materiais amorfos explicam a variabilidade que queremos controlar, e que decisão cada variação deve provocar?

Antes de implantar a rotina, vale fechar:

  • Quais materiais cimentícios suplementares entrarão no método e em que faixas?
  • Qual rota de britagem, moagem e homogeneização preserva comparabilidade entre amostras?
  • Como a calibração será construída e verificada quando fornecedor ou formulação mudarem?
  • Que diferença de resultado exige nova amostragem, ajuste de dosagem ou investigação?

Na ORYX, o XRD é discutido como parte de um fluxo: amostra representativa, método validado e decisão de processo. É assim que a fração amorfa deixa de ser um dado abstrato e passa a apoiar a formulação.